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Masturbação e esperança
por Davi Chang Ribeiro Lin
Era uma reunião de dez rapazes cristãos
e a galera tinha se reunido pra compartilhar um pouco da vida. Bons
amigos, eles tinham abertura pra falar de diversos assuntos polêmicos. Foi
assim que um dos membros fez uma pergunta direta: “E aí amigos, qual de
vocês nunca se masturbou?”
O silêncio revelou a resposta de todos. Ninguém poderia dizer: “Eu não!”
A masturbação tem sido definida como “a procura solitária do prazer, por
meio de excitações realizadas com as mãos ou de qualquer outra maneira”.
No meio cristão, as opiniões sobre o tema divergem muito. Estudiosos
variam de opinião, considerando a masturbação desde um pecado grave até um
presente dado por Deus. Não é sem razão que as opiniões não tenham
consenso: a masturbação não é diretamente citada ou proibida pela Bíblia.
A masturbação pode acontecer em diferentes fases da vida e ter um
significado diferente para cada pessoa. Na infância, é um processo de
reconhecimento do próprio corpo; na adolescência e juventude, tende a ser
um modo de liberar a energia sexual, uma “válvula de escape”, já que não
há um parceiro(a) sexual ou, se forem cristãos evangélicos, esperarão pelo
casamento.
Certamente a nossa humanidade não é estática. Estamos em desenvolvimento e
temos a possibilidade de viver uma contínua abertura para a realidade e
para a verdade, ou, ao contrário, viver um fechamento e regressão. O
Eterno criou o humano em uma abertura relacional, dando ao homem a
possibilidade da intimidade e de relacionamentos que o façam crescer.
Homem e mulher são obra perfeita que se completa em mútua dependência.
É por não conter a intimidade e o relacionamento que a masturbação não
consegue expressar toda a beleza do projeto de Deus para a sexualidade
humana. No livro “Ele os Criou Homem e Mulher — para uma vida de amor
autêntico”, Jean Vanier descreve os dramas dos deficientes mentais da
comunidade Arca. Muitos viveram experiências de rejeição; alguns deles se
masturbam compulsivamente. Diante de realidades tão sofridas, ele conclui:
“Outrora condenava-se com muito rigor a masturbação. Essa condenação corre
o risco de suscitar temores, de alimentar o complexo de culpa, acarretando
graves inibições e até mesmo um ódio de si e do corpo. Hoje, a tendência é
dizer que a masturbação não tem importância, que é preciso deixar correr,
que é normal na adolescência. Parece-me que a verdade está entre esses
extremos, entre o rigor excessivo e a licenciosidade. Não se deve condenar
o jovem que se masturba. Ele tem pulsões que não consegue integrar. Porém,
é preciso ajudá-lo a não repetir esta prática.
A masturbação pode fechá-lo em si mesmo, num mundo imaginário e impedi-lo
de viver uma verdadeira relação”.
Vanier sugere que não devemos condenar um jovem que se masturba; ele ou
ela está buscando integrar-se. Contudo, a prática repetida contém perigos,
sendo um deles a tendência de fechar a pessoa na fantasia. Uma
personalidade madura nos possibilita enfrentar a realidade e amar os
outros como são, e não como sonhamos que sejam. O risco é fechar o jovem
em uma expressão sexual que não se orienta para a comunhão e para a
doação. Muitos jovens estão presos em um ciclo de isolamento e angústia e
usam a masturbação para aplacar a solidão.
É na vida autêntica de seus relacionamentos, vivida pelo solteiro nas
amizades e no namoro, que ele ou ela se abre para a vida verdadeira e para
a expressão de afetos e medos. Em um contexto de aceitação e verdade, a
confiança no amor cresce. Assim, o jovem caminha rumo à integração da
sexualidade, afirmando sua esperança no amor e, sobretudo, no amor de
Deus, que o cura e o livra da culpa.
Devemos lembrar que nossa sexualidade não se restringe ao genital, mas se
expressa no cuidado e no afeto em nossos relacionamentos. A expressão
“vida sexual ativa” como sendo somente o ato sexual reduz a sexualidade e
não contempla todas as suas dimensões. Boa parte da ênfase na sexualidade
genital é consequência do desaparecimento das verdadeiras amizades. Em uma
sociedade que enfoca a sensação e não o vínculo, o sexo se torna expressão
de corações feridos, e não de corações abertos.
Tenho a convicção de que muitos de nós, cristãos evangélicos, sofremos com
a masturbação. Muitos querem deixar a prática e partir para um
relacionamento, mas nem sempre conseguem. Porém, eu vejo beleza e verdade
em todos aqueles que desejam servir a Cristo e, reconhecendo suas
fraquezas, correm para a graça de Deus se apropriando das palavras do
apóstolo Paulo: “Já não há condenação para aqueles que estão em Cristo
Jesus”.
Podemos celebrar a sexualidade do povo de Deus porque celebramos aquele
que criou a beleza, o prazer e o amor. O plano de Deus para nós é a
participação em sua vida, no vínculo perfeito do Pai, Filho e Espírito
Santo; é um pleno relacionamento com os outros; é amar. O grande drama
humano é fechar-se em si mesmo, sem comunicar-se. Sem esta abertura
relacional, nossa vida se esvazia e a chama se apaga. A base da nossa
esperança é a confiança no amor de Deus, que sustenta as nossas frágeis
iniciativas de amor humano. Cada um de nós deve lutar pela esperança e
amor em nossos relacionamentos, a fim de manter acesa a chama da vida.
Davi Chang Ribeiro Lin
25 anos, é psicólogo pela UFMG,
especialista em psicologia clínica existencial
e mestrando em estudos cristãos
no Regent College, Canadá.
Referência ABNT: LIN, Davi Chang
Ribeiro. Masturbação e esperança.
Revista Ultimato. Edição N.320. Editora Ultimato.
Setembro-outubro/2009. p. 52-53.
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